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Antônio Moura, from Silence River

Manchas

Uma pequena mancha preta ave no topo do dia.
O dia que se ergue do sono das estrelas.
Ave sobre a terra e suave se aninha
nas retinas do homem que, pequenino,
entrecerra os olhos lançados para cima.
Uma pequena mancha na terra
e uma pequena mancha no céu,
espelhando-se em suas imagens provisórias.
A mancha que flutua e
a mancha que se arrasta,
mas que também se eleva quando
a visão da ave lhe empresta asas.
Mancha presa na relva mirando
a mancha preta suspensa no azul,
vindas do ventre secreto do mundo
para a incerteza da face visível da natureza.
Mancha celeste, mancha terrena.
Entre elas apenas o rumor do vento
segreda a poeira e a nuvem da existência.
Pequenas manchas pretas sobre o branco do dia.
Ave e homem, dois pontos, à beira do silêncio:

Stains

A little black stain bird at the top of the day
The day that rises from the stars’ sleep.
Bird above the earth and whirring to nest
on the retinas of the man who, so small,
half-closes his eyes as he looks up.
A little stain on the earth
and a little stain in the sky,
reflecting each other in provisional images.
The stain that floats and
the stain that crawls along,
but which also rises when
the sight of the bird lends it wings.
Stain bound in the grass, observing
the black stain suspended in the blue,
both come from the world’s secret womb
to the insecurity of nature’s seen face.
Heavenly stain, earthly stain.
Between them just a murmur of wind
whispers dust and the cloud of existence.
Little black stains on the white of the day.
Bird and man, two dots, on the edge of silence: